Inclassificáveis
por Radha Barcelos*
Um orçamento baixo, uma equipe reduzida, nenhum patrocínio e uma dupla de diretores empenhados em contar uma história fascinante. A história de 13 homens que nos anos 70 encantaram o Brasil e a Europa com seus saltos altos e cílios postiços gigantes, corpos esculturais e peludos, com a precisão e leveza de seus movimentos e irreverência de suas apresentações. Em tempos de AI5 eles eram o ponto fora da curva. Direita ou esquerda, homem ou mulher, complacente ou guerrilheiro. Eram tantos os rótulos, tantas as escolhas obrigatórias, que eles escolheram a não escolha. Como dizia a “mãe” do grupo, Wagner Ribeiro: “não somos homem, nem mulher, somos gente.” Eram inclassificáveis. Sua única escolha foi o amor, pois “só o amor constrói”, outra máxima da sábia “mãe”. E foi com muito amor e dedicação que os diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez fizeram o documentário Dzi Croquettes.
O grupo teatral que levava o mesmo nome do filme caiu no esquecimento e lá ficou por anos. As novas gerações nunca tinham ouvido falar e mal sabiam a influência que eles tiveram em muitas expressões artísticas que fazem sucesso hoje, como o gênero besteirol, por exemplo. Em um movimento que vem se tornando comum no cinema documental brasileiro, cujo último grande ícone cultural resgatado foi Simonal, Tatiana e Raphael se juntaram então, para jogar luz novamente sobre os Dzi, os apresentando às gerações mais novas e fazendo as mais velhas se emocionarem lembrando.
O documentário se legitima através de consistentes depoimentos de artistas consagrados como a “madrinha” Liza Minnelli, Claudia Raia, Miguel Falabella, Amir Haddad, Aderbal Freire Filho, Marília Pêra, Nelson Motta, Ney Matogrosso, Gilberto Gil e vários outros que se dividem entre os que conviveram com eles e os que foram influenciados. A ótima edição alterna as entrevistas com os números musicais citados, dando dinamismo ao filme, mas deixa o espectador curioso para vê-los por completo. Fica visível a pesquisa minuciosa e o capricho que os cineastas tiveram para tratar do assunto, tanto que isso já vem se revertendo em prêmios mundo a fora. O documentário já levou 10 e está muito perto de se tornar o mais premiado do Brasil.
É impossível assistir ao filme e não se envolver com aquela adorável loucura. Os Dzi Croquettes eram a expressão brasileira da androginia, que começava a despontar lá fora, eram os nossos David Bowie e Alice Cooper, mixando a força do macho e a graça da fêmea. Estavam para o teatro, assim como os midnigths movies do John Waters no Village (NY) estavam para o cinema, provocando no público uma sensação de estranheza misturada com deslumbramento típicas de movimentos vanguardistas. E até hoje o são. Muitos ainda não entenderam o que viram. Outros viraram tietes, termo cunhado por eles mesmos que não se referia apenas a ser fã, mas à opção de levar um estilo de vida Dzi porque a arte ultrapassava os palcos e invadia a vida.
Da mesma forma, é irresistível para a diretora Tatiana Issa participar do enredo do filme. Filha do cenógrafo Américo Issa, que fazia parte da equipe técnica do grupo na época, ela passou a infância entre os “palhacinhos”, como ela os chamava dada a maquiagem exagerada. Assim como também é impossível para essa colunista que lhes escreve, ser imparcial em suas análises pelo mesmo motivo da idealizadora do documentário. Todos querem de algum modo fazer parte da família Dzi.
 
FICHA TÉCNICA
Diretor: Tatiana Issa e Raphael Alvarez
Elenco: Ciro Barcelos, Bayard Tonelli, Cláudio Tovar, Benedicto Lacerda, Rogério de Poly, Liza Minnelli, Marília Pêra, Nelson Motta, Miguel Falabella, Claudia Raia, Betty Faria...
Pais: Brasil
Gênero: documentário
Duração: 110 min

(*) Crítica de cinema do Jornal Petrópolis em Cena
www.petropolisemcena/setimaarte

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