Lançamento da Flip, livro reúne 50 anos de correspondência entre o poeta e o escritor Cyro dos Anjos. Inéditas, 163 mensagens revelam um Drummond imprevisível, irônico: contextualizam personagens, a produção cultural e o cenário político do século 20

**Nas livrarias a partir de 4 de julho**

O Carlos antes de ser Drummond, ainda poeta estreante, o Cyro anterior a O amanuense Belmiro. O Carlos funcionário público, já poeta prolífico, pai, marido e crítico espirituoso. O Cyro memorialista, viajante e também não menos crítico. Intimidades, trajetórias muito particulares, as andanças profissionais e o lado menos óbvio e conhecido dos dois escritores são revelados agora – 25 anos após a morte de Drummond – em Cyro & Drummond – correspondência de Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade, com organização, prefácio e notas de Wander Melo Miranda e Roberto Said, lançamento da Biblioteca Azul para a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) 2012, em que Drummond é o escritor homenageado.
A obra reúne documentos originais da Fundação Casa de Rui Barbosa e do Acervo de Escritores Mineiros, da Universidade Federal de Minas Gerais. Mostra cartas, bilhetes, postais e telegramas que expõem abertamente, como numa conversa de confidentes, as angústias dos escritores diante do destino incerto reservado aos que se arriscam à carreira literária em um país periférico, as estratégias e os percalços experimentados no serviço público. Por isso, não escapam as agitações políticas de um período pautado pelo acirramento do debate ideológico e das efervescências no Brasil e no mundo: Estado Novo, Segunda Grande Guerra, Modernismo. Suas vidas e suas cartas são atravessadas pelo fervor e, sobretudo, pelas incongruências de tempos revolucionários.
O livro deixa clara a intimidade de ambos, fato que permite que opinem sobre outros escritores como Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos. Encontra-se em Drummond um leitor voraz, emitindo sem rodeios juízos de valor sobre o que se produzia a seu redor. Amparado no fio da confiança, traçado entre compadres, o poeta assume o papel de crítico ferino dos regionalistas, estabelecendo as linhas divisórias de suas preferências e, sobretudo, de suas antipatias literárias. Porém, também nesse terreno, a reflexão artística e metalinguística parece dar ensejo ao debate político, afinal, como desabafa Drummond: “Nascemos todos incapazes para a política, mas fadados a sofrer no lombo suas transformações.”
Nos textos, aparecem também as inquietações típicas de uma geração rural, que se casou cedo, mas que passou a vida em um contexto urbano de progressiva abertura e liberdade. Não apenas os projetos e impasses pessoais, mas da literatura de ambos, aquela produzida na esteira dos diversos modernismos brasileiros em meados do século 20. E é precisamente nesse campo que a publicação das cartas faz sentido para além do simples voyerismo.

Trecho de carta de Drummond

“O arraial das letras anda muito alvoroçado com os últimos produtos do engenho nordestino, que são uma tragédia da Raquel, onde os personagens se matam a metralhadora em cena aberta, e o romance do Zé Lins, que teve a habilidade de descobrir novos palavrões, ou novas acepções dos antigos para ornamentar a sua produção tão límpida (a publicação no Cruzeiro será expurgada). O livro da Raquel, pelo menos, tem o mérito de uma linguagem saborosa, mas falta-lhe qualquer resquício de interesse psicológico, pois a alma de Lampião e de seus cabras é tão elementar como a do Zé Lins. Já o livro deste lucraria em arte se fosse escrito pelo próprio Lampião. O que me impressiona verdadeiramente, depois de tantos anos de residência no Rio e de conhecimento da turma, é o entusiasmo causado por qual quer produto daquela região, que faz noticiaristas e críticos avulsos babarem de gozo, enquanto o mais absoluto silêncio envolve uma obra do quilate doRomanceiro da Inconfidência, da Cecília. É exato que, no caso desta, se trata de dama difícil, mas ao menos em homenagem à beleza, que é evidente até para os calhordas, eles deviam cair de queixo diante dela.”


Os organizadores

Wander Melo Miranda é professor titular de Teoria da Literatura na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). É autor de Corpos escritos e Nações literárias, entre outros. Roberto Said, também professor de Teoria da Literatura na UFMG, é autor de Angústia da ação: poesia e política em Drummod e Margens teóricas: memória e acervos literários.


Outras obras sobre Drummond publicadas pela Globo Livros

Os sapatos de Orfeu – José Maria Cançado (biografia)
Dossiê Drummond – Geneton Moraes Neto (livro-reportagem)


Coleção Cyro dos Anjos publicada pela Biblioteca Azul

O amanuense Belmiro
A menina do sobrado
Abdias
Poemas coronários

Ficha técnica
Título:
 Cyro & Drummond – correspondência de Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade
Autores: Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos
Organização, prefácio e notas:Wander Melo Miranda e Roberto Said
Páginas: 328
Gênero: Cartas
Formato: 14 cm x 21 cm
ISBN: 978-85- 250-5219-3
Preço:  R$ 49,90
Editora: Biblioteca Azul




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